“‘O inconsciente da vida anímica é o infantil’ (Freud), um infantil que
não é o passado, mas sim o que não passa, presente imutável, sempre
atual, sempre em ato, quer se trate de amar (/odiar) ou empreender.
Sustentar tanto a originalidade de cada vida quanto a universalidade de
seus elementos é um dos paradoxos centrais da psicanálise.
Por não ser atemporal, resta à psicanálise ser intempestiva.
Se há uma qualidade necessária para ser psicanalista, é certamente a da
plasticidade psíquica, a mesma que permite viajar psiquicamente a lugares desconhecidos, ser de todas as cores e de todos os sexos, à altura das
loucuras propostas pela transferência: um dia, Deus ou seu profeta; no
outro, animal doméstico.
O inconsciente é atemporal, mas a psicanálise não. Uma de suas condições de existência é precisamente a possibilidade de pensar. Ninguém
pode prever o futuro da psicanálise. As nuvens ameaçadoras têm origens diversas, desde a destruição do par indivíduo-democracia, o reina